quinta-feira, 5 de março de 2015

Quem morre?


Quando observamos, da praia, um veleiro a afastar-se da costa, navegando mar adentro, impelido pela brisa matinal, estamos diante de um espetáculo de beleza rara. O barco, impulsionado pela força dos ventos, vai ganhando o mar azul e nos parece cada vez menor. Não demora muito e só podemos contemplar um pequeno ponto branco na linha remota e indecisa, onde o mar e o céu se encontram. Quem observa o veleiro sumir na linha do horizonte, certamente exclamará: Já se foi. Terá sumido? Evaporado? Não, certamente. Apenas o perdemos de vista. O barco continua do mesmo tamanho e com a mesma capacidade que tinha, quando estava próximo de nós. Continua tão capaz, quanto antes, de levar ao porto de destino as cargas recebidas. O veleiro não evaporou, apenas não o podemos mais ver. Mas ele continua o mesmo. E talvez, no exato instante em que alguém diz: Já se foi, haverá outras vozes, mais além, a afirmar: Lá vem o veleiro. Assim é a morte. Quando o veleiro parte, levando a preciosa carga de um amor que nos foi caro e o vemos sumir na linha que separa o visível do invisível dizemos: Já se foi. Terá sumido? Evaporado? Não, certamente. Apenas o perdemos de vista. O ser que amamos continua o mesmo. Sua capacidade mental não se perdeu. Suas conquistas seguem intactas, da mesma forma que quando estava ao nosso lado. Conserva o mesmo afeto que nutria por nós. Nada se perde, a não ser o corpo físico de que não mais necessita no outro lado. E é assim que, no mesmo instante em que dizemos: Já se foi, no mais Além, outro alguém dirá feliz: Já está chegando. Chegou ao destino levando consigo as aquisições feitas durante a viagem terrena. A vida é feita de partidas e chegadas. De idas e vindas. Assim, o que para uns parece ser a partida, para outros é a chegada. Um dia partimos do mundo espiritual na direção do mundo físico; noutro, partimos daqui para o espiritual, num constante ir e vir, como viajores da Imortalidade que somos todos nós. 
 Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem não encontra graça em si mesmo. 
Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito, repetindo todos os dias os mesmos trajetos. 
Quem não muda de marca. 
Não se arrisca a vestir uma nova cor ou não conversa com quem não conhece. 
Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da sua má sorte ou da chuva incessante. 
Morre lentamente, quem abandona um projeto antes de iniciá-lo, não pergunta sobre um assunto que desconhece ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe. Então não morreu. 
Os anjos a esperam.
Pablo Neruda

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Segue em paz amiga do coração, valeu por cada carinho nos momentos de amizade verdadeira que compartilhamos juntas, das risadas, vou me lembrar sempre quando ouvir o Teterete Teteterete de Jorge Ben Jor , e que por mais que a cada ligação que eu desse e tentava disfarçar a voz ou queria até mesmo passar um trote e nunca conseguia, você já sabia e de um jeito muito seu sempre me desarmava com suas crises de riso até mesmo no telefone.
Quando me disse que estava com câncer e te respondi de imediato e categoricamente que não, pois o câncer agora sim estava saindo de você e ainda assim juntas chegamos a conclusão que um dia iríamos rir disto tudo, e vamos rir muito, simplesmente porque o câncer se envergonhou e saiu de vez daquela que sempre soube se fazer gigante até nas adversidades. Vai amiga, prepara a sala para um bate papo gostoso, porque um dia, nós vamos nos reencontrar.

bjkss da Teretete


2 comentários:

✿ chica disse...

Que triste quando amigos se vão e nos deixam na saudade,não é? Fica bem!! Lindo testo e que ela descanse em paz! bjs,chica

Misturação - Ana Karla disse...

Teresoca esse texto de Pablo Neruda é grandioso, belo.
Sua homenagem foi fantástica.
Xeros

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